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07 maio 2011

'Insensato Coração': a pane do realismo

A opção pelo realismo e pela crítica social, que se mostrou vigorosa em tantas novelas das nove (ou das oito, como era antigamente), hoje respira com dificuldade. O desempenho pífio de Insensato Coração, exibida pela Globo nesse horário, é um forte indício disso. A trama tem audiência ainda menor que a das antecessoras, já consideradas motivo de preocupação para a Globo – tanto Passione (Silvio de Abreu) como Viver a Vida (Manoel Carlos) obtiveram média de 35 pontos no Ibope, enquanto Insensato Coração oscila de 32 a 35.

Diversos motivos explicam a fraca performance da trama das nove (vija a lista abaixo). Mas a fatiga da velha estratégia realista certamente é a mais pede análise. Se na época, digamos, de Vale Tudo (1988), também assinada por Gilberto Braga, a denúncia da corrupção de ricos e pobres, condensada de maneira antológica na "banana" que o vilão encarnado pelo ator Reginaldo Faria dá o Brasil em sua fuga bem sucedida no final da trama, ainda era capaz de eletrizar a audiência, 20 anos mais tarde as chantagens, falcatruas, pancadarias e assassinatos de Insensato Coração não são mais do que lugares-comuns. Na moldura que as novelas oferecem, esse tipo de crítica parece ter atingido o seu limite.

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Insensato Coração é contra-indicada para quem quer puro entretenimento. Uma realidade dura, repleta de conflitos, dá o tom da trama. Há espaço para toda sorte de malvados: o banqueiro corrupto – e assassino da própria esposa – Horário Cortez (Herson Capri, à direita na foto), o inescrupuloso Léo Brandão (Gabriel Braga Nunes), a ambiciosa Eunice Machado (Deborah Evelyn), o chantagista Henrique Taborda (Ricardo Pereira), a arrogante Paula Cortez (Tainá Müller), e por aí vai. Até a meiga Norma Pimentel (Glória Pires) virou a casaca e entrou para o time dos vilões, matando a presidiária Araci (Cristiana Oliveira). Morte, aliás, é o que não falta nessa novela que, de light, tem só o amor do casal principal.

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O exagero de realidade faz de Insensato Coração uma espécie de continuação do Jornal Nacional. A sensação de mais do mesmo se agrava pelo histórico da fórmula, corrente desde a década de 1980. Vale Tudo, também de Gilberto Braga, chocou – e atraiu – pelo mau caratismo dos personagens, imortalizado em cenas como aquela em que o vilão Marco Aurélio (Reginaldo Farias) dá uma "banana" aos telespectadores no final da novela. Foi sucesso de público e de crítica, enquanto Insensato Coração registra audiência pífia. A comparação mostra que o que devia chocar se tornou banal e não desperta mais o interesse dos brasileiros, acostumados a consumir notícias tão ou mais difíceis de engolir.

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O par romântico Marina Drumond (Paola Oliveira) e Pedro Brandão (Eriberto Leão) entrou com louvor para o rol dos mais sem graça da história da telenovela brasileira. Os dois não convencem como casal – muito menos protagonista – pelo simples fato de que não há química – nem técnica dramatúrgica capaz de salvá-los. Para piorar, o bom-mocismo exagerado do casal, comum à maioria dos pares românticos de ficção, destoa no meio dos tantos pecados e pecadilhos da trama. A esperança é de que o envolvimento de Marina com o vilão Léo (Gabriel Braga Nunes), nos próximos capítulos, dê uma apimentada no romance para lá de insosso que ela tenta emplacar com o herói Pedro.

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Com exceção de Glória Pires, cujo personagem ganha cada vez mais destaque na trama - estrategicamente na tentativa de recuperar a audiência -, atores do calibre de Antonio Fagundes, Natália do Vale, José de Abreu e Nathalia Timberg são meros coadjuvantes com nuances de caráter pouco elaboradas e participação em cenas curtas. A novela está no ar há mais de quatro meses e esses personagens não parecem nem perto de decolar e sair das telas da TV para a boca do povo. As participações especiais de grande nomes, como Ana Beatriz Nogueira, José Wilker e Cristiana Oliveira (que engordou 15 quilos para o papel de Araci), colaboraram, mas não alavancaram a popularidade da trama da Gilberto Braga.

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Assistir a Deborah Secco em Insensato Coração dá sensação de déjà vu. Natalie Lamour e Darlene Sampaio, da novela Celebridade, não só têm a mesma intérprete (Secco), mas os trejeitos, roupas, veia cômica e sonho de ser capa de revista. E saíram da imaginação do mesmo autor: Gilberto Braga. No livro A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo (Panda Books), Braga confessa o gosto pelas repetições. "Honestamente, acho que minhas novelas são bastante parecidas umas com as outras. Toda vez penso em fazer algo diferente. (...) Mas, ao mesmo tempo, manter o meu estilo. Não é do meu temperamento procurar o novo."

“Vale Tudo foi ao ar num momento de profunda crise econômica, o país se democratizava e vivia a ressaca da ditadura. Esses expedientes da realidade foram canalizados para a narrativa e tiveram força na composição da novela”, diz Gilberto Alexandre Sobrinho, professor de história da TV da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Já Insensato Coração, pontua, pertence a outro momento da televisão brasileira e do país, em que a representação realista da sociedade perdeu força. “Embora esse modelo ainda tenha penetração junto ao público, ele está com seus dias contados.”

Além de completamente permeado por notícias de corrupção e mau-caratismo que fazem os conflitos escritos por Gilberto Braga e Ricardo Linhares soarem triviais ou repetitivos, o Brasil vive uma fase de mudanças sociais, com alterações significativas nas relações tradicionais entre homem e mulher e pais e filhos. Essas transformações estressam o espectador, que não quer ver na TV o que enfrenta a duras penas no dia a dia. “A mudança nas relações sociais é boa porque moderniza a sociedade, mas causa um cansaço emocional grande, não é fácil sempre se reinventar. A tradição é um modo de vida no piloto automático, e o extremo realismo não permite isso”, afirmao professor Eurico Santos, sociólogo da Universidade de Brasília (UnB) .

Mais do mesmo – Colaboram para a rejeição do telespectador a repetição do autor e do gênero. Gilberto Braga já admitiu que não é do seu temperamento procurar o novo. Deu para perceber. A começar pelas semelhanças gritantes entre Darlene Sampaio (Celebridade) e Natalie Lamour (Insensato Coração), personagens quase idênticas vivida pela mesma atriz, Deborah Secco.

"Há ainda a casa de shows que promove apresentações com grandes nomes da MPB. Em Celebridade, a empresária Maria Clara Diniz, personagem de Malu Mader, promovia espetáculos no Sobradinho, que ficava no bairro do Andaraí. Por lá, passaram, entre outros, Lulu Santos, Dudu Nobre e Zeca Pagodinho. Em Insensato Coração, o Barão da Gamboa já recebeu, até o momento, Simone e Ney Matogrosso", aponta o jornalista André Bernardo, coautor do livro A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo (Panda Books).

Fé cênica – Para completar, Insensato Coração não convence pela própria história que apresenta. Ter como casal protagonista um par sem química como Pedro Brandão (Eriberto Leão) e Marina Drumond (Paola Oliveira) e como enredo uma multifragmentada rede de conflitos de desfecho rápido é um mal da novela. Ela nega ao telespectador o que ele mais quer: crer no que está vendo, se identificar com os personagens e acompanhar sua evolução.

Exceto por Norma, personagem de Glória Pires que foi enganada pelo vilão Léo (Gabriel Braga Nunes), presa injustamente e agora vai iniciar sua vingança pessoal contra o canalha, nenhum personagem tem uma história cujo fio se possa seguir, inteiro, pela novela. É, aliás, um desperdício de grandes atores como Antonio Fagundes e Natália do Vale (vide lista acima). Não é à toa que a trama das seis da Globo, Cordel Encantado, com seu toque cativante de fábula, não tenha do que reclamar.

Profusa em histórias, falta a 'Insensato Coração' o básico: um fio condutor

Henrique (Ricardo Pereira) esfaqueia Tia Neném (Ana Lúcia Torre) em mais um conflito da trama

Henrique (Ricardo Pereira) esfaqueia Tia Neném (Ana Lúcia Torre) em mais um conflito da trama (Divulgação/TV Globo)

Quem assiste a Insensato Coração desde o início da novela, em janeiro deste ano, já perdeu a conta de quantos enredos paralelos cumpriram seu ciclo – nasceram, cresceram e morreram. Quem nunca viu o folhetim, então, é capaz de se sentir perdido ao tentar acompanhá-lo por dias seguidos. Não dá para saber qual é – e se há – o enredo principal. A aposta de Gilberto Braga e Ricardo Linhares numa estrutura narrativa desconexa, marcada por temas fortes e duros (saiba mais sobre a crise do realismo), tem rendido aos autores frutos para lá de amargos, como a audiência abaixo do padrão do horário nobre.

Acadêmicos, colegas de profissão dos autores, especialistas em TV e noveleiros de plantão são unânimes em criticar a produção. Um renomado dramaturgo, que pediu anonimato, chegou a chamar Insensato Coração de “colcha de retalhos”, pela falta de um fio condutor que amarre o telespectador à novela. “Falta uma linha central que o público possa acompanhar e com a qual se identificar. A novela é feita de várias histórias que surgem e se perdem”, afirmou.

O capítulo do último dia 4, por exemplo, foi centrado no personagem Horácio Cortez, o corrupto banqueiro interpretado por Herson Capri. Contente depois de abortar uma investigação da Polícia Federal por meio de suborno, ele se refestela numa coletiva de imprensa e no quarto com a namorada Natalie Lamour (Deborah Secco). No final do capítulo, recebe uma ligação do chantagista Henrique Taborda (Ricardo Pereira) e sobem os créditos. O par romântico Marina Drumond (Paola Oliveira) e Pedro Brandão (Eriberto Leão) quase não aparece. O vilão Léo, muito menos. Os irmãos Pedro e Léo, releituras de Esaú e Jacó, são personagens centrais da trama, mas por vezes não aparecem na novela que, em teoria, protagonizam.

É difícil de acreditar, mas, de acordo com os autores, a dinâmica é proposital. “Esta é uma característica de Insensato Coração. É uma história escrita com muitos acontecimentos e desdobramentos. O enredo imprime a velocidade”, dizem por e-mail Braga e Linhares.

A saída de Norma (Glória Pires) da prisão promete uma reviravolta no curso da novela A saída de Norma (Glória Pires) da prisão promete uma reviravolta no curso da novela

A esperança da virada – Nos últimos dias, Insensato Coração obteve índices melhores no Ibope, com 38 e até 39 pontos na Grande São Paulo. Os números, no entanto, não alteram o resultado geral da trama, até aqui um fiasco para os padrões globais do horário. A esperança é que a virada de Norma (Glória Pires), personagem que foi usada pelo vilão Léo, cumpriu pena por causa dele e agora quer se vingar, aqueça a trama. Se isso ocorrer, Norma será a exceção que confirma a regra, já que é a única personagem cuja evolução se pode acompanhar durante a novela. Diferentemente dos outros, ela não abortou relações e iniciou outras, nem paralelamente: Norma está desde o começo ligada a Léo.

“Os autores deveriam ter antecipado a saída de Norma da cadeia e o início da sua vingança”, diz Cintia Lopes, noveleira e co-autora do livro A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo. Cintia ainda dá uma dica preciosa a Gilberto Braga: ouça o colega Silvio de Abreu. Os dois têm o costume de se reunir em momentos de crise, em encontros sutilmente batizados de "ajuda teu irmão". “Eles discutem rumos alternativos para a história ou soluções para um determinado personagem”, conta. Segundo Cintia, as reuniões costumam surtir efeito nas tramas que estão no ar. Braga e Abreu precisam muito conversar.